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  • Giordanna Neves

Quem venceu a eleição: Bolsonaro ou as redes sociais?

Eleição presidencial de 2018. Um cenário intenso de polarização e disputas ideológicas. No segundo turno, dois candidatos que incorporavam papéis opostos. E o maior diferencial: o crescimento acentuado da influência das redes sociais no cenário eleitoral brasileiro.

Mas, esse panorama não teve início recentemente. Pelo contrário: em 2013, os movimentos de rua multitemáticos eram organizados pela internet e já demonstravam que as pessoas ganhariam um maior espaço e não estariam mais subjugadas apenas às informações transmitidas por veículos tradicionais.


Com essa expansão da força das redes, vieram os desdobramentos nas eleições: a multiplicidade de fontes online, dinamismo na troca de mensagens e uma maior interação com os candidatos. O atual presidente, Jair Bolsonaro, utilizou desses meios para desenvolver sua estratégia de comunicação e propagar a figura que representava ou disseminar suas visões sobre políticas públicas.


Entretanto, frente a essa circunstância, surge uma incerteza: as redes sociais foram determinantes para a vitória de Bolsonaro?


Para o sociólogo e especialista em comunicação e comportamento, Fábio Gomes, o presidente representava exatamente o que os eleitores buscavam: uma renovação na política tradicional e um antipetismo à flor da pele. “Ele assumiu o personagem desejado e usou as redes sociais para disseminar sua candidatura. As estratégias das redes, sobretudo os grupos do WhatsApp, foram fundamentais para sua vitória.”


Antônio Carlos Vandanezi, economista que atua no setor de Pesquisa Eleitoral, acredita que as redes sociais desempenharam um papel significativo, mas não capaz de elegê-lo. “No meu entendimento, o que ocorreu foi a ascensão do antipetismo e Bolsonaro foi quem melhor incorporou esse sentimento. Esse foi o diferencial e as redes apenas contribuíram para o fortalecimento dessa imagem”, diz. Para os especialistas, Bolsonaro criou uma identidade baseada no conceito da transparência, de uma candidatura sem máscara e a internet consolidou essa ideia. De acordo com Fábio, isso ficou ainda mais claro no uso de imagens sem efeitos e sem correções. Uma produção sem cuidados técnicos trouxe ao eleitor a ideia de que era um candidato que não estava ensaiando. “Ele transmitia veracidade e essa foi a essência da figura construída e disseminada”, afirma.

A TV deixou de ser influente?


Os eleitores alegam que Bolsonaro tenha quebrado paradigmas: superou o pouco tempo de TV no primeiro turno, apoio de um só partido e uma campanha com poucos recursos financeiros. Após o atentado sofrido em Juiz de Fora (MG), fez a campanha em casa. No entanto, os partidos adversários acreditavam que com o horário eleitoral na TV a situação mudaria. Aconteceu o contrário: as redes sociais ressaltaram um eleitorado que descobria seu poder de participação.


Fábio coloca em dúvida a verdadeira influência da TV, visto que o Fernando Haddad (PT) cresceu por esse meio, porém, por outro lado, Geraldo Alckmin usou intensamente o veículo e não disparou nos resultados. “Bolsonaro poderia ter feito campanha na TV e teria um grande alcance, porque ele representava bem a busca do eleitorado de transparência”, analisa.


Em contrapartida, Antônio Carlos acredita que o horário eleitoral não foi relevante para a vitória de Bolsonaro, mas a frequência com que o então candidato conseguiu aparecer nos telejornais em função das polêmicas que sempre produziu pode ter contribuído. Todavia, o especialista pondera que as redes sociais e os aplicativos ultrapassaram a importância da TV e da Rádio em função de ser uma comunicação direta e, principalmente, por reforçar o sentimento de grupos com o mesmo pensamento.


O disparo de mensagens


Oposicionistas ao Bolsonaro defendem que a disseminação de mensagens através do WhatsApp, muitas replicadas das redes sociais (sob suspeita de propagação paga de conteúdo atacando adversários e de notícias falsas), foram fundamentais para o resultado da eleição.


Segundo Carlos, notícias falsas atrapalham o processo e eleitores menos esclarecidos são levados a acreditar em rótulos não verídicos. No entanto, ele acredita que a vitória do candidato Bolsonaro esteja diretamente relacionada ao antipetismo que já vinha crescendo desde as eleições anteriores. O especialista aponta, ainda, que no pleito de 2018 tais informações irreais foram plantadas por todos os candidatos e ocorreu uma espécie de “chumbo trocado”, ou seja, se algum adversário tivesse vencido, o argumento utilizado dos oposicionistas certamente seria o mesmo de quem acredita que as Fake News elegeram o atual presidente.


Por outro lado, Fábio relata que o WhatsApp foi uma ferramenta importante, que obteve um crescimento exponencial e uma força inegável, transformando o destino da eleição. “É um aplicativo de recebimento e repasse de informação muito poderoso e os grupos funcionam de forma muito rápida. O público com idade acima de 50 anos tem usado mais frequentemente se comparado com as redes sociais, como Facebook”, diz.


De acordo com Relatório da FGV, a participação da comunicação foi menor do que a colaboração de eleitores. “Esse tipo de construção de redes pode ser um grande produto para as próximas eleições. O WhatsApp veio para transformar, mas tem a questão da situação legal, já que não é permitido comercializar listas”, completa o especialista em Comunicação e Comportamento.


E agora? Como fazer campanha?


Estudiosos acreditam que o cenário político está transformado. A tecnologia alterou o modo de fazer campanha e revolucionou os artifícios dos candidatos para “vender a melhor imagem”. Mas isso significa que será possível contar com o apoio apenas das mídias socias nas próximas disputas?


Fábio analisa a participação dos eleitores: apenas 1/3 deles usam a internet, ou seja, as mídias tradicionais ainda terão um papel significativo, devido, principalmente, à credibilidade desses veículos e à associação de Fake News com o uso das redes sociais. Por isso, ele reforça a ideia de que a conjugação das mídias sociais com as tradicionais é o melhor recurso, mas com um adendo: é preciso utilizar as redes sociais estrategicamente, priorizando a interação. Caso contrário, torna-se uma campanha mecânica e um domínio das forças tecnológicas para manipular a mente dos eleitores. “Se somente as mídias sociais serão suficientes, eu não sei. Mas uma coisa é certa: sem elas não se fará mais campanha vitoriosa no Brasil”, ressalta.


Para Carlos, a maneira de realizar campanha será variável de acordo com cada disputa. No caso do pleito municipal majoritário, ele defende que o peso das mídias tradicionais será ainda muito relevante, uma vez que as discussões estão ligadas a questões concretas, como transporte, calçamento e limpeza urbana, ou seja, menos sobre o perfil do candidato. Já as campanhas de presidentes, senadores, deputados e vereadores há uma tendência a serem objetivas e focadas em um aspecto: os candidatos comunicarem com públicos específicos e selecionados que defendam suas propostas, utilizando cada vez mais as redes sociais e aplicativos de conversa.


Em relação ao horário eleitoral de televisão, o especialista alega que há muito tempo não é eficiente, visto a grande oferta de canais pagos e o crescimento da internet. “O sentimento que o tempo de TV era decisivo no resultado existia pois não era considerado que, na maioria das vezes, os candidatos que detinham o maior tempo nesses veículos eram os que tinham mais recursos. O resultado positivo não estava associado apenas ao espaço no horário eleitoral, mas, sobretudo, por efeito desses fundos”, conclui.



Fábio Gomes:

Sociólogo, Mestre em Administração, Comunicação Organizacional e Negócio e especialista em estudo da comunicação e dos comportamentos dos públicos nas relações institucionais. Coordenação geral de investigações comportamentais em todo o Brasil, com apresentação de análises e indicações de ações promissoras para potencializar resultados. Diretor do Instituto Informa, focado na coordenação Geral de Projetos de pesquisas: estratégias metodológicas, diagnósticos e prognósticos.


Antônio Carlos Vandanezi Alvim:

Ciências Econômicas – UFJF; Economista; Trabalha na área de projetos de pesquisa e de viabilidade econômica, desenvolvendo atividades para os setores público e privado. Fundador, diretor e responsável técnico da empresa Sieg Consultoria Ltda. Áreas de atuação: Projetos de Transporte, Estudos de Mercado, Avaliações de Administrações Públicas e Pesquisa Eleitoral.




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