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  • Giordanna Neves

Qual postura o Brasil assume diante da crise venezuelana?

Quem acompanha os noticiários e as redes sociais pôde perceber que o tópico Venezuela está nos holofotes. A nação enfrenta reviravoltas e alcançou uma posição de destaque na mídia de inúmeros países do mundo. Sob julgamentos e sanções, o atual presidente, Nicolás Maduro, resiste à uma crise econômica e humanitária que desola os nativos.


Maduro, que era vice-presidente, assumiu o cargo interinamente após a morte de Hugo Chávez. Sem o carisma e a popularidade desse líder político, ele precisou ampliar o assistencialismo para agradar os eleitores, mesmo com a escassez de dinheiro nas contas do governo. A resposta? Ainda menos dinheiro e um déficit exorbitante. A solução vista por ele e sua equipe? Imprimir mais notas. O reflexo é inevitável: inflação alta e preços inacessíveis.


Para os críticos, soma-se a esse panorama deplorável o autoritarismo do presidente. Segundo eles, membros oposicionistas foram impedidos de se candidatarem às eleições de 2018 e Maduro foi eleito. O resultado foi classificado como ilegítimo e, no dia 23 de maio, Juan Guaidó, nomeado presidente do parlamento, declarou-se presidente interino da Venezuela. No meio desse contexto, o atual governo brasileiro, sob comando de Jair Bolsonaro, posicionou-se contrário à Maduro. O Brasil está entre os 50 países que reconhecem Guiadó e um dos que tentaram enviar ajuda humanitária aos venezuelanos.


As interpretações em relação à maneira como o governo Bolsonaro lida com a situação venezuelana são variáveis. Uma luta pela democracia ou uma narrativa que interfere e desrespeita questões políticas vizinhas?


O envio de ajuda humanitária


No dia 21 de fevereiro, Maduro declarou o fechamento da fronteira com o Brasil – justamente onde seriam entregues comida, remédios e itens de higiene básicos como forma de amparo à população. Como justificativa, ele alega que essa ajuda era um pretexto para uma invasão militar à Venezuela e um golpe para tirá-lo do poder.


Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC, a crise de abastecimento é resultado, principalmente, da guerra econômica movida pelos EUA com o intuito de asfixiar a economia e provocar descontentamento da população contra o governo. Ele completa, ainda, que qualquer tipo de ajuda humanitária deriva de um acordo comum entre o país destinatário e entidades internacionais idôneas e qualificadas, como a Cruz Vermelha. “Nesse caso, não há consenso. O governo Trump buscava desqualificar o governo de Nicolás Maduro e fortalecer os grupos opositores que almejam a sua derrubada por meios golpistas e violentos”, ressalta.


Seguindo essa ideia, Margarida Salomão, deputada federal em Minas Gerais (PT), aponta que as “mãos americanas”, em parceria com países sul-americanos de governo conservador, não concordam em buscar um caminho mediado diplomaticamente para a entrega dos bens. “Fica claro que não se trata apenas de ajuda humanitária, mas de construir uma narrativa contra a Venezuela, com pretensões que passam pela geopolítica – no caso, o petróleo”, avalia.


Como forma de exemplificar esse panorama, Paulo Velasco, professor de Política Internacional na UERJ, defende que a má gestão e o próprio aparelhamento do estado agravaram o cenário crítico no país. “Maduro ampliou ainda mais a distribuição de cargos para os militares em posições estratégias e em empresas públicas. Muitas vezes esses personagens não têm conhecimento técnico para exercerem a função”, diz.


Paulo Kramer, cientista política, completa que a hiperinflação galopante, índices-recordes de criminalidade, milhões de venezuelanos em fuga do país e o aumento exponencial da taxa de mortalidade infantil transformam a ditadura venezuelana na maior tragédia humanitária da história das Américas.


Uma guerra dos EUA?


Oposicionistas acreditam que o Brasil, ao se envolver contrariamente ao governo Maduro e enviar, por exemplo, ajuda humanitária aos venezuelanos, está sendo escudo de uma guerra que só interessa aos Estados Unidos, o que representa um ato de irresponsabilidade e uma interferência nos problemas internos do território alheio.


De acordo com Igor, uma guerra civil no país vizinho prejudicaria o Brasil no fluxo maciço de refugiados, na violação do território por combatentes armados estrangeiros, no tráfico de armas através das fronteiras e na destruição de um projeto de integração internacional sul-americana. “Além de contribuir com o fortalecimento do imperialismo estadunidense, que atua de forma negativa para o desenvolvimento e a soberania dos países da América Latina”, complementa.


Margarida acredita ser incoerente aliar-se a Trump, uma vez que este ameaça a Venezuela, mas estende a bandeira da paz para a Coreia do Norte. Ela reitera: “Se o Brasil mantivesse sua postura de mediador diplomático esse dilema não existiria. A democracia venezuelana passa por problemas, mas isso não assegura a outras nações o direito de intervir sobre um país soberano”.


Em contrapartida, Velasco expõe que o governo brasileiro deve ser cauteloso e evitar iniciativas exacerbadas, mas precisa reconhecer a inegável crise humanitária que atinge níveis apocalípticos. “É uma vergonha que alguns partidos de esquerda do Brasil ainda fechem os olhos para essa situação, como o PT. Reconhecer a gravidade do quadro é algo imperativo”, enfatiza.


Kramer alinha-se à essa visão e afirma que o Brasil e os Estados Unidos não contemplam a intervenção militar na Venezuela. Até porque, segundo ele, as Forças Armadas brasileiras são debilitadas por décadas de investimentos em tecnologia e material bélico. “Essas nações, de um lado, optaram por apertar o torniquete financeiro internacional dos donos do poder e seus beneficiados, e, de outro, estimular deserções de comandantes militares-chave”, garante.


Guaidó como solução?


A imagem de Juan Guiadó tornou-se uma incógnita no meio da decadência econômica, política e humanitária da Venezuela. Especialistas especulam que o presidente do parlamento não é unanimidade entre a oposição, que não está convicta de suas reais intenções.

Igor desconfia da capacidade de Guaidó, pois, em suas palavras, ele foi treinado pelos Estados Unidos em operações de desestabilização política e atua como um simples peão dentro de um jogo que é movido em Washington. “É um fantoche do governo Trump, um impostor que não tem a menor legitimidade para se proclamar presidente do seu país”, pondera. De acordo com Velasco, a oposição é muito fragmentada e Guaidó está longe de ser um objeto de apoio consensual, afinal, era pouco conhecido e, no fim das contas, representou uma tentativa de conseguir um resultado concreto para minar Maduro. “E não funcionou. Ele se autoproclamou presidente e não atingiu resultados práticos. Não controla instituição importante no Estado, nem o tesouro, o orçamento e os militares. Isso danifica sua legitimidade e o seu poder. As perspectivas não são promissoras para Venezuela.”, defende.


Já Kramer assegura que Juan, diferente de lideranças oposicionistas rivais que estão no exílio, representa uma esperança à população. “Ele reúne maiores condições de mobilização política para conduzir a crise venezuelana a um desfecho, de preferência pacífico”, conclui.


Possíveis desfechos


Embora muitos concordem que Nicolás Maduro precisa deixar o poder, não há clareza em relação aos passos que devem tomar a partir daqui. Quais poderão ser os próximos destinos?

Para Margarida, a única resposta possível para quem quer amenizar a ditadura é o caminho da diplomacia. “É evidente é que a questão democrática venezuelana não se resolverá pela imposição de força de qualquer outro país”, afirma.


Conforme Fuser, decidir se o presidente deve permanecer ou sair do governo é papel do dos venezuelanos, já que Maduro foi reeleito legitimamente em eleições limpas e competitivas, com a participação de candidatos opositores e em plena liberdade de campanha. Ele acredita que os opositores contam com mecanismos constitucionais para defender a remoção do presidente e deveriam recorrer a tais ao invés de apelar para uma intervenção militar estrangeira. “Ao fazerem isso, agem como traidores de sua pátria”, finaliza.


Paulo Velasco pressupõe que é difícil prever o futuro da Venezuela e acredita haver diferentes caminhos possíveis: pode ser que Maduro fique no poder e a figura do Guaidó se encolha gradativamente; os militares podem tirar o apoio ao Maduro e, assim, será o fim desse governo, já que estes são peças determinantes no equilíbrio de forças; e há a possibilidade de uma guerra civil, caso aconteça uma escalada de violência e os grupos recorrerem às armas para prevalecer suas vontades.


Dentre essas, ele espera que o Brasil respeite suas tradições diplomáticas de prudência e não se deixe levar por uma aventura militar, como quando participou de uma intervenção na República Dominicana ao lado dos EUA. “O governo brasileiro pode tentar costurar um diálogo entre oposição e Maduro para uma solução negociada a partir da própria Venezuela, e não através de uma resposta vinda de fora”, conclui.


Paulo Kramer complementa: “Comandantes militares, envolvidos na gestão fraudulenta da estatal petrolífera PDVSA e no narcotráfico, demonstram preferir unir seus destinos ao do ditador Maduro até as últimas consequências”.



Igor Fuser:

Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC; Doutor em Ciência Política; Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação Santiago Dantas; Graduação em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero; Autor dos livros "Energia e Relações Internacionais", "Petróleo e Poder - O Envolvimento Militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico", "Geopolítica - O Mundo em Conflito", "A Arte da Reportagem" e "México em Transe". Pesquisador nas áreas de Política Externa Brasileira, Geopolítica da Energia, Política na América Latina e Política Externa dos EUA.


Margarida Salomão:

Professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, com Doutorado e Pós-Doutorado pela Universidade da California, em Berkeley. Deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais.



Paulo Velasco:

Professor de política internacional Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da UERJ; professor de política externa brasileira no MBA em relações internacionais da FGV-Rio; doutor em ciência; mestre em relações internacionais; e bacharel em direito pela UERJ. Pesquisador nas áreas de América Latina e Política Externa Brasileira, com ênfase em integração regional, tendo publicado diversos artigos e capítulos de livro. É colaborador frequente como especialista na GloboNews.


Paulo Kramer:

Paulo Kramer é cientista político com doutorado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Kramer atua como professor licenciado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) e analista da Kramer & Ornelas - Consultoria.




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