• Giordanna Neves

IRÃ X EUA: entenda a história

Atualizado: Jan 21


Essa sequência de episódios conflituosos ainda é uma realidade. A última semana de 2019, por exemplo, foi repleta de confrontos.


No dia 27 de dezembro de 2019, um civil americano que tinha sido contratado para prestar serviços em uma base militar iraquiana foi morto em um ataque a míssil e militares ficaram feridos. Em retaliação, no dia 29 de dezembro, os EUA realizaram cinco ataques aéreos no Iraque e na Síria, resultando em 25 mortes. Por fim, no dia 31, manifestantes de uma organização paramilitar iraquiana apoiada pelo governo invadiram a embaixada dos EUA no Iraque, ateando fogo no saguão de entrada do prédio.


Como resposta, no Twitter, Donald Trump garantiu que o Irã ia pagar “um grande preço” por essa invasão. Logo no início de 2020, na madrugada do dia 3 de janeiro, o presidente americano autorizou o ataque de drone que resultou na morte do general iraniano Qassem Soleimani (62), no aeroporto internacional de Bagdá, no Iraque. Soleimani era o principal estrategista militar e uma figura central na geopolítica do país.


O Irã prometeu vingança e, no dia 7, lançou dezenas de mísseis balísticos contra duas bases americanas no Iraque, mas não houve confirmação de feridos ou mortos. O chanceler do Irã, Mohammad Javad Zarif, enfatizou em seguida que o Irã havia "concluído sua resposta proporcional" a morte de Soleimani e que o país não queria uma escalada.


Paralelamente, um avião com 176 passageiros que ia de Teerã (Irã) a Kiev (Ucrânia) caiu após decolar do aeroporto internacional da capital iraniana. De acordo com o governo, os mísseis que provocaram a queda da aeronave foram lançados acidentalmente.


No dia seguinte, Trump fez um discurso moderado e disse que “os Estados Unidos estão prontos a abraçar a paz com todos aqueles que a buscam”. Mas, afirmou que adotará novas sanções e medidas de isolamento do país persa.


Quanto a morte do líder do Irã, ele voltou a defender e definiu Soleimani como "o maior terrorista do mundo”. Porém, não mencionou que a decisão de mata-lo foi uma resposta a possíveis planos do general iraniano de atacar alvos americanos, como disse o secretário de Estado, Mike Pompeo.


Frente à essa batalha, o olhar do mundo se volta ainda mais para a complexa relação entre os dois países. Como interpretar estes capítulos e o que esperar dos seguintes?


O Professor de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios em Oriente Médio (NENOM) da ESPM, Gunther Rudzit, fez uma análise desse panorama.


Leia os principais trechos da entrevista:


1) Qual foi a estratégia de Trump ao matar Soleimani?

Conseguir definir realmente qual foi a estratégia do Presidente Trump é uma das maiores incógnitas do governo dele. Mas, há algumas hipóteses, como o papel do Secretário de Estado Mike Pompeu há muito tempo dizer que seria hora dos Estados Unidos eliminarem o general "causador de problemas" da região e ter conseguido impor esta agenda ao Presidente.

Há também a hipótese de que a imagem da embaixada americana em Bagdá sendo invadida causou uma apreensão muito grande no Presidente já pensando na sua reeleição em tempo integral. Isto porque tal imagem relembraria a tomada de 52 diplomatas americanos como reféns na embaixada americana em Teerã em 1979, que durou 444 dias. Em grande parte, este foi considerado um fator decisivo para a não reeleição do então presidente Jimmy Carter.

Por fim, há a hipótese, também ligada ao processo eleitoral, de que até agora o Presidente Trump não tem nenhum grande feito em termos de política externa para defender durante a campanha. Ele não tirou as tropas do Afeganistão, não tirou as tropas do Iraque, não fez a Coréia do Norte abrir mão da bomba atômica, se retirou do Acordo de Paris sem receber apoio de nenhum outro governo e não conseguiu fazer a China mudar de atitude. Portanto, ele precisará de uma marca forte para defender sua política externa durante a campanha.


2) O assassinato do general dá força ao conservadorismo no Irã?

Em um primeiro momento pareceu dar força ao Regime, uma vez que os protestos contra o mesmo acabaram e o apoio contra os EUA foi instantâneo. Por outro lado, acabou de vez com a possibilidade de qualquer diálogo entre os dois países por, no mínimo, uma geração, uma vez que o ódio aos só aumentou.

Contudo, com a derrubada do avião de passageiros ucraniano, parte do apoio da população iraniana ao Regime desapareceu, voltando a ter protestos. Mesmo que não seja em larga escala, muito concentrado entre estudantes universitários, as cenas das manifestações se espalham, mesmo com a censura imposta. Portanto, o lado conservador das forças políticas iranianas não saiu ganhando muito e a pressão por reformas econômicas volta com força.


3) Um avanço do radicalismo no Irã é positivo ao Trump ao justificar as profundas sanções e possivelmente inviabilizar o diálogo do país persa com os europeus?

Mesmo com todas estas movimentações, o governo Trump não está buscando apoio internacional para suas sanções, porque ele a tem internamente. Até porque, mesmo com as condenações europeia, ele levou adiante suas ações. Portanto, nada mudará quanto às medidas financeiras por ele implementadas.

Em relação ao diálogo entre iranianos e europeus, já acontecia só na aparência, uma vez que as empresas europeias não aderiram ao projeto de comércio desenvolvido entre os governos por receio dos empresários sofrerem sanções de Washington. Algumas destas empresas até deixaram o país, como maior exemplo a Peugeot, que tinha uma presença grande no mercado iraniano via uma joint venture.


3) Uma das principais promessas de Trump na Presidência foi a de retirar as tropas americanas das guerras no Oriente Médio. Como fica essa promessa agora?

Muito provavelmente ele buscará alguma forma de justificar a saída das tropas do Iraque depois da morte de Soleimani, e, principalmente, depois da lei aprovada pelo Congresso iraquiano exigindo a retirada das tropas. Acredito que esta será uma das medidas que ele tomará antes da eleição para apresentar ao seu eleitor. Quanto ao Afeganistão, a situação é mais complicada, porque uma retirada unilateral das tropas fará com que o Talibã volte a controlar o país e isto poderá ter um impacto negativo no eleitor americano. Desde o governo Obama, os americanos estão negociando direta e indiretamente com o Talibã para um processo de paz. Mas, será muito difícil conseguir isto até novembro. Portanto, uma retirada do Iraque já será apresentada como um grande feito que ele conseguiu, sempre comparando, negativamente, com do ex-Presidente Obama.


4) No anúncio da semana passada, Trump desejou paz ao Irã e não fez promessas de retaliação ou conflito armado, mas anunciou que fará novas sanções econômicas ao país persa. Como você interpreta essa declaração? O que podemos esperar agora?


Estas novas sanções não são tão novas assim. Em alguns casos, são a prorrogação da legislação já em vigor ou uma imposição contra pessoas ainda não afetadas. Ou seja, é mais jogo de marketing político do que efetivamente alguma ação que possa afetar ainda mais a economia e a população do Irã.

O mais estranho neste episódio é que tudo indicava que os dois lados caminhavam para uma negociação, principalmente no segundo semestre de 2019. Alguns analistas viram os ataques a petroleiros e à refinaria saudita como uma forma de Teerã aumentar seu poder de barganha em futura negociação, até mesmo aventada em pronunciamentos dos dois lados.

Mas, como disse antes, não vejo possibilidade de nenhuma negociação entre as duas partes por muitos anos. Teremos a continuação da guerra assimétrica que o Irã emprega contra os EUA direta e indiretamente, como o apoio a Bashar Assad na Síria, interferência na política e segurança do Iraque, apoio aos Houtis no Iêmen e apoio ao Hezbollah no Líbano.


5) Quais os reflexos desse cenário para o Brasil?

Os reflexos serão de duas formas. O primeiro no preço do barril do petróleo, como pudemos observar logo em seguida ao assassinato de Soleimani. Tanto que o Presidente Bolsonaro se pronunciou rapidamente sobre o tema e tentou achar alguma medida caso o aumento fosse maior e por mais tempo, uma vez que a Petrobras não teria como não reajustar o preço dos derivados nas refinarias.

O outro é em termos comerciais. Dependendo da postura que o governo brasileiro tomar de um apoio mais explícito aos Estados Unidos, o Irã poderá buscar no mercado outros produtores de milho e soja, os principais produtos que o Brasil exporta ao país. Assim, há o risco de haver uma diminuição das exportações que produzem ao redor de U$ 2 bilhões de superávit comercial bilateral a nosso favor.


Gunther Rudzit:

Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com tema na área de Segurança Internacional. Mestre em National Security por Georgetown University, Mestre em Geografia Humana na área de Geopolítica. Professor de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios em Oriente Médio (NENOM) da ESPM. Estagiário da Embaixada Brasileira em Washington e da Missão do Brasil junto à OEA. Pesquisador do Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégia - NAIPPE/USP.



© 2019 - 2020 por DICOTOMIA

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