• Giordanna Neves

A Saída dos Cubanos do Mais Médicos: quem perdeu com essa decisão?

Atualizado: 6 de Fev de 2019


No dia 14 de novembro de 2018, o governo de Cuba anunciou uma decisão: sua saída do Programa Social Mais Médicos, criado em 2013 no primeiro governo Dilma. Tal medida foi uma reação à declaração de Jair Bolsonaro, na qual afirmou que “expulsaria” os médicos cubanos com base no Revalida, um exame de revalidação de diplomas de médicos formados no exterior. Esses profissionais ocupavam mais da metade das vagas do programa e atuavam, principalmente, em regiões precárias e com baixo nível de infraestrutura. O envio dessa mão de obra é uma das principais e mais lucrativas exportações de bens e serviços do governo cubano.


As consequências dessa saída para o Brasil estão refletidas no não preenchimento de vagas que antes eram ocupadas por esses médicos. Restam, aproximadamente, 18% a serem completadas, o que representa quase 1.500 posições em aberto.


Frente a esse panorama, surgem diversos argumentos que circundam tal realidade, desde colaboração à ditadura até perseguição ao comunismo, posicionamentos extremamente peculiares e discordantes. Entretanto, qual é a base que guia essas visões?


A qualidade e a eficiência dos médicos cubanos


Marcus Pestana, ex-deputado federal e ex-secretário de Saúde de Minas Gerais, que participou da negociação do Mais Médicos, juntamente com o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, afirma que frente a um colapso econômico em Cuba, o médico virou o principal item nas relações exteriores. “Por isso, Cuba simplificou extremamente o processo de aprendizado e desenvolveu um curso de atenção básica muito breve. Assim, notou-se um item marcante entre os profissionais: alguns muito cuidadosos e atenciosos, mas nem sempre com a formação ideal”, completa.


Marcus defende que o Programa de Saúde da Família com foco em atenção primária (que inclui instruir e informar a população, além de contribuir com a mudança de hábitos), pode resolver cerca de 80% dos problemas se tiver resolutividade e estrutura. “O ideal é que o médico tenha um vínculo permanente com a população atendida, mas não basta preparo incompleto. Tem que ter carreira estruturada e qualidade no atendimento.”


Em contrapartida, para Helena da Motta Salles, doutora em Ciência Política, a competência desses profissionais é reconhecida internacionalmente e os mesmos já atuaram em outros países, sempre com alta taxa de êxito. “Faz parte da sua formação valorizar sobremaneira a boa relação médico-paciente. Eles dispuseram suas qualidades e formações humanistas à serviço da população brasileira mais carente”, defende.


Ajuda humanitária ou acordo comercial e ideológico?


Os defensores à saída afirmam que a presença dos cubanos era feita em termos comerciais e contribuinte à ditadura, e não uma “ajuda humanitária” como era vendido. De outro lado, os oposicionistas consideram que tenha sido um prejuízo grave ao Brasil, essencialmente às regiões mais precárias.  


O deputado sustenta a ideia de que havia uma ligação ideológica entre o PT e Cuba no desenvolvimento do Mais Médicos. No entanto, de acordo ele, tal aspecto era irrelevante frente a importância dos cuidados com a saúde da população. “A grande questão é que o Mais Médicos não é a saída definitiva e estruturante para o desenvolvimento de uma atenção primária de qualidade. Era uma conta alta que foi fundamental para financiar o governo cubano, porém, não eficaz para nós.”


Outrossim, ele desaprova o fato de que a maior parte do salário ia para o governo cubano, além do médico precisar ficar longe da família, a qual permanecia no país de origem. “Essa realidade não pode ser uma solução permanente, pois não tem como o Sistema Único de Saúde do Brasil depender de uma situação tão exótica como essa.”


Helena contrapõe-se a essa ideia e questiona: “Os nossos médicos podem usar critérios comerciais quando decidem onde e em que condições aceitam trabalhar, mas quando se trata dos cubanos, sua presença só é tolerada se revestir de um caráter humanitário?”


Para a cientista política, se os cubanos aceitam que parte da sua remuneração seja apropriada pelo governo de seu país, esta é uma decisão sobre a qual os brasileiros não têm ingerência. Além disso, alega que os estudantes de medicina (e de outras áreas) têm amplo apoio material e logístico do governo cubano para se formarem, portanto, sentem necessidade de contribuir com a população que os subvencionou durante os anos de estudo. “Essa formação está inserida em uma cultura que valoriza o projeto de um país socialista, com equidade social. O governo brasileiro preferiu sacrificar brasileiros pobres em nome de seu “anti- comunismo” que remete à atmosfera da guerra fria.”


E agora? Como atrair os médicos brasileiros para o preenchimento das vagas?


A cientista política acredita que ser médico no Brasil tornou-se um sinal de prestígio, de uma posição social de destaque. Para ela, alguns jovens (há exceções) que se formam no curso de Medicina querem cultivar a posição alcançada, por isso, preferem os grandes centros e clínicas renomadas. “Diferentemente da cultura cívica estimulada nos médicos cubanos, no Brasil, a lógica capitalista é predominante:enriquecer é a meta, exibir status, um programa de vida”, defende.


Helena aponta que para transformar essa realidade e incentivar os profissionais a priorizarem o social,seria imprescindível realizar um trabalho de conscientização dos jovens para que percebam a grande contribuição que devem dar ao país, tendo em vista a situação privilegiada de que desfrutam na sociedade.


Sob outra perspectiva, Marcus preserva a noção de que incentivar uma carreira inteligente, com estímulos, é relevante para que os médicos se formem em saúde da família e aceitem ir para os rincões do Brasil. “É substancial garantir perspectiva de progressão na carreira, com diferencial de remuneração por periculosidade, por distância e outros critérios”, ressalta.  


Os erros e acertos do Programa


Para os especialistas, ao desenvolver e investir no Mais Médicos, o governo alcançou alguns fatores significativos e benéficos, no entanto, acreditam haver falhas como qualquer projeto de uma Democracia.


De acordo com Marcus, os acertos baseiam-se na questão de que o Programa foi uma resposta a vazios assistenciais. “Ter médicos é melhor do que ter nenhum. Contudo, ter profissionais que tomam procedimentos indevidos pode ser prejudicial.” Ele ainda acrescenta: “Por exemplo, o prefeito de uma cidade de 3.500 habitantes, na região central de Minas Gerais, me contou que, apesar de cuidadosa, uma médica cubana foi apelidada de Drª. Dipirona, pois ela sempre prescrevia esse remédio”.


Na sua avaliação, Helena menciona que arealização do programa em si foi um bônus, apesar das críticas azedas que só conseguiam enxergar na iniciativa a ajuda a uma ditadura de esquerda. “Fora isso, creio que talvez tenha faltado uma campanha mais abrangente na sociedade mostrando a competência dos médicos cubanos, o papel que já tiveram em outros países, o quanto poderiam beneficiar a população carente brasileira.”


Relatos de uma brasileira formada em Cuba


Sarah Figueira Rocha, médica brasileira formada em Cuba, foi para Havana em 2004 para garantir uma bolsa no projeto ELAM - Escola Latinoamérica de Medicina, criado por Fidel Castro. Apaixonada por medicina humana e com uma família preocupada com questões sociais, não pensou duas vezes antes de ir. O processo seletivo, na época, consistia em uma prova escrita de conhecimentos gerais, entrevistas e debates, diferente do vestibular convencional no Brasil.

Ela relata que o curso de Medicina para os brasileiros era composto por uma fase que chama “pré-médico”, período de adaptação de seis meses, no qual era ensinado o espanhol e algumas outras matérias, como Biologia e Química.  Após essa temporada, inicia-se de fato o curso com duração de seis anos.


Em relação à questão estrutural, Sarah conta que, como em todo o país, é antiga, então faltam alguns recursos, mas nada tão grave quanto o SUS. “Não faltam medicamentos, leitos e atendimentos especializados”, diz.

Quanto ao ensino, a médica afirma que a visão preventiva é mais ampla e valorizada, porém, tem acesso a todas as disciplinas que são repassadas aqui.  Havia hospitais para cada especialidade, com uma estrutura organizada e nenhum tipo de valor cobrado. “Vi pessoas esforçadas apesar de todas as dificuldades ou salários baixos. Há algumas críticas quanto ao ensino, mas acredito que tudo depende do aluno. Eu, particularmente, me senti preparada assim que formei”, finaliza.


Após a finalização do curso, ela retornou ao Brasil e se especializou em Psiquiatria na sua cidade natal, Juiz de Fora (MG). Hoje, atua em clínica popular (Policonsultas), na AME (plano de saúde), realiza atendimentos em centro terapêutico de dependência química e trabalha como clínica geral pelo SUS na Upa.




Marcus Pestana:


Formado em Economia, é professor licenciado do Departamento de Economia e Finanças da Universidade Federal de Juiz de Fora. Deputado Federal e secretário-geral do PSDB nacional. Na Câmara dos Deputados, é titular da Comissão Especial da Reforma Política, membro da Comissão de Seguridade Social e Família (Saúde) e da Comissão de Finanças e Tributação. Durante o Governo de Aécio Neves, foi Secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais e presidiu o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). Elegeu-se Deputado Estadual em 2006. Em Brasília, foi Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente e Chefe de Gabinete do Ministério das Comunicações. No Governo de Minas, foi Secretário-adjunto na Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral. Tem interesse em Saúde Pública; Gestão Pública; Economia e Finanças; Reforma Política e Reforma Tributária.


Helena da Motta Salles:


Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestrado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Profª Associada da UFJF, aposentou-se em fevereiro de 2008. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Estrutura e Transformação do Estado, atuando principalmente nos seguintes temas: crise-reforma-estado, cidadania, municípios, Política Comparada, Política Industrial, Políticas Públicas. Trabalha no momento na UAB - Universidade Aberta do Brasil, projeto de Educação a Distância do MEC: leciona na graduação de Administração a distância da Faculdade de Administração da UFJF; atuou na produção de material didático para a UAB. Integra um grupo de pesquisa- Política Industrial de Países Selecionados: Brasil, Rússia, India e China (BRIC), financiada pela ABDI - Agência Brasileira de Desenvolvimento.


Sarah Figueira Rocha:


Médica Psiquiatra formada em Cuba.





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