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  • Giordanna Neves

A crise no Chile: um reflexo de políticas liberais?

Há quatro semanas, o Chile está sendo palco de manifestações e descontentamentos. O estopim dessa crise foi o aumento de 30 pesos no preço da passagem de metrô na capital.


Estudantes começaram a protestar, pulando a catraca nas estações, o movimento foi se intensificando e ganhou um novo tom. Os reflexos posteriores foram bloqueios de vias, danos em estações e trens, saques a supermercados, incêndios, confrontos com forças de segurança e mais de 20 mortes.


Como resposta, o presidente do país, Sebastián Piñera, chegou a revogar o aumento nas passagens e decretar estado de emergência na capital, Santiago. No entanto, essas medidas não acalmaram o movimento.


Piñera adotou, ainda, algumas condutas, como uma troca de ministros e medidas paliativas. Mas, os manifestantes exigem mais qualidade na saúde, educação e aposentadoria. Ou seja: reformas estruturais no modelo econômico do país.


Segundo o jornal O Globo, uma pesquisa recém-publicada pela Universidade do Chile mostra que 85,8% da população apoiam os protestos e 83,9% concordam com que sejam feitas mudanças na atual Constituição, herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Essa carta, vigente desde 1980, é apontada como a origem das desigualdades.


Assim sendo, o governo anunciou na noite do dia 10 de novembro que iniciará o processo para alterar a Constituição. Esta é mais uma tentativa para amenizar a turbulência presente no país.


O caos chileno


Ao observar o cenário violento atual no Chile, surgem algumas hesitações. Primeiro: como um país que tem os melhores índices econômicos da América Latina pode estar vivenciando esse caos?



- Em 2017, apenas dois países latino-americanos estavam entre os 50 primeiros do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): Chile, em 44º , e a Argentina, em 47º.


- Segundo o Banco Mundial, o Chile tem o maior PIB per capita na América Latina.


- Segundo a OCDE, os estudantes chilenos têm a melhora nota no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) na América Latina.


- Segundo o Banco Mundial, a porcentagem de chilenos com renda inferior a U$ 5,50 é a menor da América Latina.



Para o economista e professor do Insper e do IBMEC-SP, Roberto Dumas, o Chile tornou-se o país mais rico da América Latina, mas a onda de protestos surge a partir do momento em que os jovens se queixam da desigualdade social e acreditam que o sistema de capitalização (no qual cada trabalhador realiza uma espécie de poupança para garantir a aposentadoria no futuro) não garante uma qualidade de vida digna aos idosos.


Quanto a essas reivindicações, ele discorda. “O erro é que as pessoas não se planejam, ficam mais velhas e esperam do governo uma ajuda financeira. Mas o governo não cria dinheiro. Se você quer menos desigualdade e o retorno de uma social democracia, alguém tem que pagar a conta. Se uma população quer contar com uma aposentadoria garantida, por exemplo, que cobre mais impostos dos mais jovens. A escolha quem faz é o país”, avalia Roberto.

Já o economista e professor da FVG-SP, Paulo Galo, considera que, tendo como base a renda per capita, o Chile avançou em relação aos outros países da América Latina, mas ainda é um país com muita desigualdade, que vivencia uma agenda de desmonte do estado do bem-estar. Para ele, a revolta chilena é consequência de uma somatória de ambos fatores.


“A desigualdade é muito elevada e isso deve à estrutura produtiva chilena que ainda é muito dependente do cobre. O país tem um sistema produtivo ruim, com baixa complexidade e pouca sofisticação. Faltam oportunidades, faltam bons empregos e faltam bons salários. E o Estado deixou de cumprir algumas de suas funções sociais”, pondera Paulo.


As práticas liberais


No Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet, foram implementadas reformas liberais com base nas ideias do economista Milton Friedman, da Escola de Chicago. Durante esse período, os chamados “Chicago Boys” realizaram medidas como abertura do mercado, flexibilização de leis trabalhistas e espécies de privatizações, até mesmo de setores como a saúde, a educação e a exploração do cobre (principal recurso de exportação chileno).


Os governos democráticos que se seguiram não abandonaram essas práticas. Pelo contrário: continuaram com o plano e o país obteve melhorias, como um PIB per capita que foi de U$ 2.500, em 1990, para U$ 16.000, hoje.


Entretanto, enquanto a economia, de certa forma, alavanca, a sociedade enfrentava uma realidade desigual. De fato, uma parcela da população não teve acesso a esses avanços e permaneceu em condições precárias.


Hoje, observando os protestos e as reivindicações feitas pelos manifestantes, ressuscita o seguinte questionamento: faz sentido culpar o neoliberalismo pela revolta que o Chile enfrenta hoje?


De acordo com Roberto, a resposta é não, pois basta avaliar que os outros países da América Latina que enveredaram para políticas sociais, assistenciais e protecionistas não estão em situações melhores. Ele afirma que, dentre as nações latino-americanas, os dados mostram que o Chile foi o que mais deu certo.


“Cada país escolhe seu modelo econômico. Se todos concordarem em pagar mais impostos para garantir um benefício maior (sem isenção) para minorias organizadas, que prejudiquem maiorias desorganizadas, então que paguem por isso”, complementa Dumas.


Na contramão, Paulo afirma que não faz sentido culpar o neoliberalismo porque o Chile está longe de ser um país liberal como os brasileiros acreditam. Ele classifica-o como um modelo pragmático que abusou do intervencionismo com políticas cambiais e, ao mesmo tempo, privatizou setores como a previdência social.


Para o economista, os elevados índices de desigualdade contribuem para esse caos que os chilenos experienciam. Um dos grandes responsáveis é o sistema produtivo do país, ainda muito dependente da mineração e do cobre.


“O Chile continua com uma estrutura produtiva de baixa sofisticação, que pudesse dar uma condição de salário maior e uma sensação de mais bem-estar para a população. A complexidade produtiva permite um desenvolvimento mais inclusivo da economia, contribuindo para criação de circuitos virtuosos de desenvolvimento cultural, social e tecnológico, que se retroalimentam para formar uma rede produtiva mais sustentável”, ressalta.


O projeto brasileiro


Para alguns economistas, o Chile é um modelo a ser seguido. O Ministro da economia, Paulo Guedes, por exemplo, é um dos personagens que vê a doutrina neoliberal como salvação para a economia brasileira.


Guedes é defensor de um plano de privatização, da redução do tamanho do Estado para aliviar a dívida pública e da abertura comercial – e tem priorizado este caminho em sua gestão. Inclusive, após a posse de Bolsonaro, a equipe econômica foi denominada como a turma de “Chicago Boys”.


Mas, após essa onda de revoltas que propagaram no Chile, o temor da população brasileira quanto à agenda do ministro fortalece.


Afinal, o Chile de hoje pode ser o Brasil de amanhã?


Segundo Roberto, não há possibilidade de os brasileiros enfrentarem a realidade chilena por viverem em um país extremamente assistencialista, que cobra até mais impostos para garantir mais benefícios.


“É bom fazer o bem, mas alguém tem de pagar por isso com mais impostos. Se algum governo não estiver com suas contas fiscais ajustadas, o risco aumenta e os financiadores da dívida pública irão demandar mais juros. Juros mais altos, como forma de atrair a poupança da população, atuam negativamente nas decisões de investimentos e no consumo. Governo não gera dinheiro, apenas recolhe e distribui”, enfatiza o professor.


Por outro lado, Paulo garante que há esse risco se o governo priorizar, exclusivamente, uma pauta liberal.


“Não tem como um país se desenvolver de forma sustentável sem uma combinação entre praticas estatizantes e liberais. O motor do desenvolvimento econômico são as empresas, que criam riqueza, tecnologia e geram emprego. Por outro lado, o Estado tem um papel regulador e ajuda a retomar o nível de atividade econômica e confiança (principalmente em períodos de crise)”, conclui o economista.


Paulo Gala:

Graduado em Economia pela FEA/USP. Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas FGV/EESP de São Paulo, onde é professor desde 2002. Foi gestor de fundos multimercado e renda fixa, hoje CEO e Economista da Fator Administração de Recursos/FAR.




Roberto Dumas:

Trabalhou em diversas instituições tais como UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA. De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai e em 2016 e 2017 atuou no banco dos BRICS em Shanghai nas áreas de operações estruturadas e risco de crédito. Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).




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