CONHECIMENTO E INFORMAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Por Rodrigo Prando

        Há tempos, caro leitor, que estamos polarizados politicamente e fraturados, socialmente. A política deixou de ser espaço de diálogo, negociação e convencimento. Tornou-se uma arena de ódio, fake news e peleja entre inimigos. Neste cenário, as posições anti-intelectualistas e, muitas vezes, antidemocráticas, ganharam visibilidade e elegeram algumas categorias como inimigos a serem duramente combatidos: cientistas, intelectuais e jornalistas. Em síntese, os produtores de conhecimento e os responsáveis pela construção e divulgação de informação.

         E, hoje, todos nós, inclusive os que atacaram cientistas e jornalistas, depositam as esperanças na confecção de vacinas e remédios para o combate do coronavírus e buscam informação nos veículos da imprensa. Em recente pesquisa do Datafolha, questionou-se se o indivíduo “confia ou não confia nas informações sobre o coronavírus divulgadas”, tendo as seguintes respostas: jornais impressos – 56% confia, 11% não confia, 25% em parte e 7% não utiliza; programas jornalísticos da TV – 61% confiam, 12% não confiam, 25% em parte e 2% não utiliza; sites de notícias – 38% confiam, 22% não confiam, 35% confiam em parte e 5% não utilizam; programas jornalísticos de rádio – 50% confiam, 11% não confiam, 21% em parte e 17% não utilizam; WhatsApp – 12% confiam, 58% não confiam, 24% em parte e 6% não utilizam; o Facebook – 12% confiam, 50% não confiam; 25% confiam em parte e 13% não utilizam. Depreende-se dos números que nesta pandemia a maioria esmagadora confia na mídia tradicional e nos jornalistas profissionais. Agora, uma pergunta: onde estão as fontes dos jornalistas? Estão nas figuras dos especialistas, cientistas, médicos, intelectuais, professores e não no “tiozinho do WhatsApp”, no grupo da família, naquela acalorada discussão no Facebook, naquele “químico autodidata” que condena o álcool em gel e sugere vinagre para higienizar as mãos. Há, aqui, ao que parece, uma sensível queda na confiança das redes sociais e uma retomada por parte dos veículos de comunicação e isso era bem diferente, especialmente, durante as últimas eleições. Os cientistas não são seres intocáveis, mas profissionais que dedicaram parte substancial de suas vidas, cursando graduação, especializando-se, pesquisando para suas dissertações de mestrado e teses de doutorado e estágios de pós-doutorado em renomadas universidades ou centros de pesquisa, no Brasil e noutros países. O conhecimento científico difere dos demais tipos de conhecimento, principalmente do senso comum, por ser alicerçado sobre o método científico, na observação dos fenômenos, na comparação, na mensuração, no estabelecimento de hipóteses, na possibilidade de testes e nas generalizações formuladas em leis, sempre, é claro, passando pela crítica de seus pares e pelo princípio da refutabilidade. A ignorância e o senso comum não irritam o cientista, mas, acreditem, as fake news e a pós-verdade o tiram do sério, pois há, neste caso, mentira e distorção deliberada da realidade, dos dados e dos fatos com objetivos obscurantistas, de viés manipulador e intenções políticas desprezíveis.   

          Enfim, caro leitor, o momento que ora presenciamos é assustador, em muitos aspectos. Não temos, ainda, noção do virá em breve. No entanto, os cientistas estão, coletivamente, dedicando o melhor de suas inteligências para mudar o quadro atual. E, talvez, essa pandemia tenha um lado positivo: revalorizar a ciência e o jornalismo, a produção e divulgação de conhecimento. Sem ciência e sem informação as trevas se avizinham e os desejos autocráticos perdem seu pudor. 

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RODRIGO PRANDO

 

Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

© 2019 - 2020 por DICOTOMIA

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